segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Françoise Hardy, opus 28

Com 74 anos celebrados no passado dia 17 de Janeiro, Françoise Hardy anunciou o seu 28º álbum de estúdio (o anterior, L'Amour Fou, surgiu em 2012): chama-se Personne d'Autre e estará nas lojas no dia 6 de Abril. O cartão de visita é belíssimo e intitula-se Le Large — pequena utopia em tom de balanço secreto.

Aucune histoire banale gravée dans ma mémoire
Aucun bateau pirate ne prendra le pouvoir
Aucune étoile filante me laissera dans le noir
Aucun trac, aucun...

Et demain tout ira bien, tout sera loin
Là au final quand je prendrai le large
Tout sera loin, donne moi la main
Là au final quand je prendrai le large

Aucune larme aucune viendra m'étrangler
Aucun nuage de brume dans mes yeux délavés
Aucun sable ni la dune n'arrête le sablier
Aucun quartier de lune, aucun...

Et demain tout ira bien, tout sera loin
[...]

Aucun autre décor, aucun autre que toi
Aucune clef à bord, aucune chance pour moi

Et demain tout ira bien, tout sera loin
[...]

Aucun requin, aucun air triste
Aucun regret, aucun séisme
Aucune langue de bois
Aucun chaos, aucun, aucun...

Et demain tout ira bien, tout sera loin
[...]

A caminho dos OSCARS
— directores de fotografia
dão prémio a "Blade Runner"

[Governor Awards]  [Gotham Awards]  [críticos de Nova Iorque]  [críticos de Los Angeles]
[American Film Institute]  [National Society of Film Critics]  [Globos de Ouro]
[National Board of Film Review]  [Critics' Choice Awards]  [NAAPC]  [associação de produtores] [associação de actores]  [N O M E A Ç Õ E S]  [associação de montadores]  [associação de cenógrafos]
[associação de realizadores]  [associação de animadores]  [USC]  [associação de argumentistas]


A American Society of Cinematograhers entregou os seus 32ºs prémios anuais, incluindo algumas distinções honorárias — Angelina Jolie foi, este ano, uma das personalidades homenageadas. Com Blade Runner 2049, o inglês Roger Deakins arrebatou o seu quinto prémio atribuído pela associação de directores de fotografia — lista integral de vencedores no site da ASC. Este video, apresentado na cerimónia, evoca as figuras de alguns directores de fotografia falecidos ao longo de 2017.

Kissin + Kopelman Quartet

Evgeny Kissin
* Evgeny Kissin
* Kopelman Quartet
- Gulbenkian [16-02-2018]

Convenhamos que os quartetos (ou quintetos) para piano e cordas não constituem um formato dominante no circuito dos concertos. Daí a expectativa gerada pelo regresso de Evgeny Kissin à Fundação Gulbenkian, acompanhado pelo Kopelman Quartet. Para mais com um programa sedutor, dir-se-ia empenhado em resumir um século de história dos sons musicais:

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
> Quarteto com Piano n.º 1, em Sol menor, K. 478

Gabriel Fauré (1845-1924)
> Quarteto com Piano n.º 1, em Dó menor, op. 15

Antonin Dvořák
(1841-1904)

> Quinteto com Piano n.º 2, em Lá maior, op. 81

Viajámos, assim, da unidade ideal da composição mozartiana para as clivagens e novas complementaridades que Dvořák impõe aos seus instrumentos, passando através da ambivalência melódica e estrutural da espantosa composição de Fauré [video aqui em baixo de uma interpretação da mesma obra, em 1998, por Marc-André Hamelin e o Leopold Trio]. O terceiro andamento de Fauré, Adagio, é um daqueles momentos em que parecemos encontrar o cruzamento exemplar de passado e futuro, de alguma maneira ajudando-nos a compreender como o século XIX parece integrar a premonição de todas as convulsões estéticas e civilizacionais que vivemos no século XX. Enfim, Kissin é, continua a ser, uma personagem exemplar desse ziguezague, cada vez mais austero, e também mais tocante, na sua arte de reinvenção das partituras.

domingo, fevereiro 18, 2018

Para além de Foucault [citação]

>>> Estamos longe do universo disciplinar que Foucault descreveu. Segundo ele, a bio-política consiste em produzir corpos dóceis em relação a normas cuja existência lhes é anterior. A governamentalidade algorítmica parece muito emancipadora em relação a este modelo, uma vez que se trata, ao invés, de produzir normas dóceis para o corpo. É, por exemplo, a "magia" do deep learning e do feed-back look, processos pelos quais a máquina é ela própria capaz de modificar os seus modelos por retroacção: se o vosso comportamento concreto não corresponde à modelização que dele se fez, isso não será considerado como um erro, mas antes como uma ocasião de reconverter a máquina de modo a afinar o sistema de perfis. Trata-se, assim, de um sistema de normas eminentemente plástico, fluido, que se cola aos comportamentos de cada indivíduo como uma segunda pele.

ANTOINETTE ROUVROY
'Da vigilância ao sistema de perfis'
entrevista de Catherine Portevin
Philosophie, número especial, 2018

Clint Eastwood, cineasta realista (1/2)

Anthony Sadler, Spencer Stone, Clint Eastwood e Alek Skarlatos
[MovieWeb]
O novo filme de Clint Eastwood, 15:17 Destino Paris, transforma figuras verídicas em actores das suas personagens — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Fevereiro), com o título 'Os soldados de Clint Eastwood são actores da sua própria história'.

Vivemos num tempo de proliferação de imagens, muitas delas empenhadas em mostrar-nos o que é, e como é, o mundo à nossa volta. Em particular na televisão, somos todos os dias bombardeados pelas transmissões em directo, apostadas em construir uma visão dos acontecimentos “em tempo real”. Dito de outro modo: no audiovisual contemporâneo, directa ou indirectamente, a questão da verdade está sempre presente. Com uma pergunta obsessiva: que grau de verdade podemos, ou devemos, atribuir àquilo que nos é dado ver?
Com o seu novo filme, 15:17 Destino Paris, Clint Eastwood apresenta uma singularíssima resposta a tal pergunta. Dir-se-ia que o veterano realizador (87 anos) quis baralhar e voltar a distribuir as cartas estéticas e éticas de um jogo tão delicado quanto complexo: para dar conta da experiência verídica de três jovens soldados americanos que impediram um ataque terrorista num comboio, Eastwood escolheu os próprios soldados como intérpretes das suas personagens.
São eles Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, com 22-23 anos no Verão de 2015. Em férias na Europa, depois de um périplo por vários países, saíram de Amsterdão para Paris no dia 21 de Agosto, tomando o comboio de alta velocidade Thalys, com partida às 15h17. A certa altura, um jovem marroquino de nome Ayoub El Khazzani, depois de muitos minutos fechado numa casa de banho, irrompeu nos corredores do comboio ameaçando os passageiros com uma espingarda e uma pistola (na sua mochila transportava uma grande quantidade de munições e uma lata de petróleo).
No misto de confusão e pânico que se instalou, El Khazzani ainda feriu um passageiro, mas graças à acção de Stone, Sadler e Skarlatos, o atacante seria neutralizado. Poucos dias mais tarde, os três jovens americanos (e ainda Chris Norman, britânico que teve também um papel determinante nos acontecimentos) receberiam a Legião de Honra do estado francês das mãos do presidente François Hollande.

À flor da pele

A envolvente energia do filme está longe de se esgotar nos minutos do ataque, afinal tão breves quanto perturbantes. Aliás, a obsessão realista de 15:17 Destino Paris produz um efeito francamente fora de moda. Escusado será sublinhar que o olhar de Eastwood nada tem a ver com as convenções mil vezes repetidas das aventuras de super-heróis. Mas também não se pode dizer que o heroísmo das suas três personagens centrais seja, para ele, um tema épico.
15:17 Destino Paris não é uma epopeia, antes uma crónica marcada pelos contrastes mais extremos da condição humana. Assim, as fascinantes cenas de Stone, Sadler e Skarlatos ainda crianças relembram-nos que os respectivos perfis mentais e emocionais se enraízam em estruturas familiares específicas e modos muito particulares de educação; no caso de Stone e Skarlatos é particularmente importante o facto de serem filhos de mães solteiras e também a sua passagem por um liceu de inspiração cristã (na visão de Eastwood, os respectivos métodos educacionais não serão um modelo de atenção às subtilezas da infância e adolescência).
Mais tarde, quando os vemos a deambular por cenários europeus, não há nenhum determinismo heróico no seu comportamento; somos mesmo levados a observá-los como protótipos do cliché do turista americano, mais ou menos indiferente aos cenários que vai registando no seu telemóvel (observe-se o seu enfado perante as maravilhas de Veneza).
Quando irrompe a cena brutal do comboio, o que mais conta é esse contraste entre a condição vulgar das personagens e o carácter excepcional do seu comportamento naquele momento tão dramático. Eastwood continua a ser um retratista de um paradoxo visceralmente humano: os heróis não protagonizam uma “missão”, são apenas figuras anónimas do comboio que partiu 17 minutos depois das três da tarde.

sábado, fevereiro 17, 2018

Moda em castanho e vermelho

Excelente porfolio protagonizado por Ina Maribo com assinatura de Jens Ingvarsson: testemunhos de uma solidão ruiva e acastanhada, com rimas de vermelho — a ver em The Fashionography.

Nas margens do Disney World

* THE FLORIDA PROJECT, de Sean Baker
[ DN, 15-02-2018 ]

Nomeado para o Oscar de melhor actor secundário, Willem Dafoe surge a interpretar o gerente de um motel na Florida, próximo do Disney World (o título The Florida Project retoma a designação do local durante o período da sua construção). Para além do tom auto-complacente de algumas cenas e da exploração de efeitos dramáticos algo simplistas, o mais interessante resulta do modo como vamos descobrindo aquele motel como uma espécie de cenário de sobrevivência, ora cómico, ora à beira da tragédia, habitado por “marginais” da vida social.
Particularmente importante é a presença das crianças, com destaque para a pequena e enérgica Brooklynn Prince, interpretando uma menina de 6 anos enredada na teia da sua mãe toxicodependente — aliás, no papel da mãe, Bria Vinaite é a grande revelação do filme.

Os clichés da Marvel

* BLACK PANTHER, de Ryan Coogler
[ DN, 15-02-2018 ]

Eis um filme que tem sido celebrado nos EUA como uma aventura de super-heróis “diferente”. Porquê? Porque no seu centro está uma figura de pele negra: o rei de Wakanda (país africano fictício), interpretado por Chadwick Boseman. É uma leitura contaminada por todo um contexto de afirmação da identidade afro-americana, cujo dramatismo tem sido agravado por posições, no mínimo, ambíguas do presidente Donald Trump.
Resta saber se a contínua repetição de clichés da produção dos estúdios Marvel pode, ou deve, ser encarada em função das características raciais dos seus protagonistas. É verdade que o filme tenta, pelo menos, alguma originalidade na concepção cenográfica de Wakanda, mas cedo se limita a prolongar os lugares-comuns de um estilo que se satisfaz com a cópia da agitação visual de um qualquer jogo de video.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

De 2001 a 2018: notícias do futuro

Os ecrãs do futuro vão ser cada vez maiores. Aliás, esse futuro já é presente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Fevereiro), com o título 'Um mundo feito de ecrãs'.

Lembram-se de 2001: Odisseia no Espaço? Acredito que sim. O filme de Stanley Kubrick completa este ano meio século de existência, sendo um daqueles objectos há muito inscrito, não apenas na arqueologia cinéfila, mas também no imaginário colectivo — atrevo-me mesmo a supor que os leitores que nunca tiveram oportunidade de ver o filme sabem do que estamos a falar.
Há dias, lembrei-me desta imagem do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea) no seu posto de comando, enfrentando os problemas trágicos, afinal muito humanos, colocados pelo hiper-inteligente computador que responde pelo nome Hal 9000... e não quero retirar o prazer da descoberta a quem não conhece o filme. Dir-se-ia que Bowman continua a ser uma personagem dos nossos dias, de tal modo está assombrado pelos muitos ecrãs que o rodeiam. Pode dizer-se, aliás, que a nave Discovery One, a caminho de Júpiter, existe como uma imensa galeria de ecrãs, aplicados desde a gestão técnica até à escolha das refeições.
A imagem surgiu por associação a notícias recentes, ligadas às novidades reveladas, em Janeiro, no Consumer Electronics Show, um misto de exposição e feira, em Las Vegas, dedicado aos objectos electrónicos do nosso dia a dia. Das suas novidades, parece poder extrair-se uma conclusão muito básica: os ecrãs caseiros de televisão, agora contaminados pelas funções tradicionais de um computador, vão ser cada vez maiores.
Surpresa? Nenhuma, como é óbvio — o aumento das medidas dos ecrãs há muito que faz parte da oferta regular do mercado. Seja como for, não deixa de ser interessante citar o estado dessa oferta. Por exemplo, os ecrãs com mais de 1,4 metros de diagonal passaram a constituir um terço das vendas da Samsung contra apenas 20% há um ano, enquanto a marca chinesa Hisense apresentou em Las Vegas um ecrã de 3,8 metros de diagonal (definido como um produto híbrido entre televisor e retroprojector).
Eis um curioso problema arquitectónico e, claro, financeiro: a concepção do espaço caseiro vai estar cada vez mais ligada aos ecrãs que lá queremos ou podemos colocar. Em todo o caso, a conjuntura leva-nos também a reconhecer que assim se vai agravar uma pergunta cândida que, há várias décadas, assombra a indústria cinematográfica: com a crescente sofisticação das condições privadas de acesso às imagens (e sons), como mobilizar os cidadãos para as salas de cinema? Em jogo está algo mais do que a evolução tecnológica — trata-se de saber se o cinema pode acabar como experiência colectiva e, nessa medida, social.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

OSCARS, passado e presente
— SOUND + VISION Magazine, FNAC
[adiado para 10 de Março]

* Questões particulares de última hora impediram a realização desta sessão no dia 10 de Fevereiro, facto pelo qual apresentamos as nossas desculpas — o SOUND + VISION Magazine terá lugar a 10 de Março.

É altura de falarmos de Oscars. Mas não apenas da aritmética das nomeações e dos prémios. No próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC, propomos uma reflexão sobre as linhas de força dos prémios deste ano da Academia de Hollywood e também uma viagem a alguns momentos emblemáticos dos mais célebres prémios de cinema do mundo.

* FNAC: Chiado, 10 Março (18h30)

Mercedes... ou isto não é futebol!

Tendo arrebatado pela quarta vez consecutiva o título mundial de Fórmula 1, a Mercedes achou por bem comemorar o feito celebrando a excelência do seu principal adversário. A saber: a Ferrari. Ou com o diz o anúncio criado pela agência italiana Grupo Roncaglia, "o valor de uma vitória pode ser encontrado na grandeza do oponente" — eis uma boa lição pedagógica contra a gritaria do futebol.

Varda & JR

* OLHARES LUGARES, de Agnès Varda & JR
[ DN, 08-02-2018 ]

Eis uma aliança criativa tão insólita quanto feliz: Agnès Varda, nome emblemático da Nova Vaga francesa (autora de Duas Horas da Vida de uma Mulher, 1962), continua a mostrar-se disponível para um cinema documental carregado de afectos e nostalgia poética; o artista que assina com as iniciais JR é alguém que gosta de fotografar pessoas anónimas, produzindo retratos gigantescos que depois cola, literalmente, nas fachadas das respectivas casas. Olhares Lugares nasce da sua deambulação por uma França esquecida, de espírito rural, conservando valores e vivências bem diferentes dos padrões dos grandes centros urbanos. É também um sério candidato ao Oscar de melhor documentário, isto depois de a própria Varda, em Novembro de 2017, nos Governor Awards, já ter sido distinguida com um Oscar honorário.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Nova canção de Ryan Adams

Nos mais diversos mercados, o Dia dos Namorados é pretexto para o lançamento e promoção de produtos que reduzem o consumo a uma monótona repetição de clichés. Assim não acontece com Ryan Adams que aproveitou a data para lançar uma nova canção, a primeira depois do álbum Prisoner (2017) — chama-se Baby I Love You (não o tema clássico de The Ronettes) e apresenta-se num belo teledisco assinado por Brook Linder.

Gloria Grahame por Annette Bening

[ DN, 08-02-2018 ]

Em tempo de sistemática banalização, para não dizer apagamento, das memórias cinéfilas, o nome da actriz americana Gloria Grahame (1923-1981) não será uma referência muito corrente... O filme de Paul McGuigan, sobre os tempos finais da actriz vividos em Liverpool (embora viesse a falecer em Nova Iorque) poderá ser também um objecto pedagógico. E tanto mais quanto nos revela a pessoa para além da imagem de marca da estrela.
Encontramos, assim, uma actriz enquistada na nostalgia da idade de ouro de Hollywood, no fundo consciente de que não é possível repetir as apoteoses do passado. Fundamental na subtileza emocional do filme é a notável composição de Annette Bening, sem esquecer a interpretação de Jamie Bell no papel de Peter Turner, o actor cujo livro de memórias serviu de base ao filme.
GLORIA GRAHAME
The Man Who Never Was / O Homem que Nunca Existiu (1956)
de Ronald Neame

terça-feira, fevereiro 13, 2018

"Live to Tell" — o nascimento de uma canção

Na arca de canções de Madonna, Live to Tell existe como uma das pérolas mais depuradas. Primeiro single do álbum True Blue (1986), a sua gestação é indissociável do filme At Close Range/À Queima-Roupa (1986), de James Foley, magnífico drama policial com Christopher Walken e Sean Penn (então casado com Madonna). Com música de Patrick Leonard e letra da própria Madonna, a canção teve uma gestação atribulada — foi inicialmente concebida para outro filme, tendo sido rejeitada; quando se colocou a hipótese de a integrar em At Close Range, Madonna não a queria cantar, considerando que o seu dramatismo seria um contraste excessivo em relação ao tom dominante do seu álbum anterior, Like a Virgin (1984). Curiosamente, para além da canção, Leonard viria a assinar a banda sonora de At Close Range.
A história era mais ou menos conhecida, mas agora podemos escutá-la contada pelo compositor, em frente ao piano, num depoimento para o programa televisivo holandês Top 2000 à Go-Go, começando por recordar a singeleza das notas de onde tudo partiu — eis a explicação de Leonard, o trailer original do filme e o teledisco da canção, assinado por Foley.





Beuys por Beuys

* BEUYS, de Andres Veiel
[ DN, 08-02-2018 ]

O mínimo que se pode dizer da arte do alemão Joseph Beuys (1921-1986) é que não pode ser reduzida a um conjunto de obras para expor em qualquer espaço tradicional... As suas esculturas ou instalações envolveram sempre modos muito particulares, poéticos e provocatórios, de ocupação dos lugares, fossem eles institucionais ou do espaço público. O documentário de Andres Veiel distingue-se, justamente, pela capacidade de nos conduzir no interior desse universo em que o gesto criativo se confunde com o discurso político, no limite, apostando em discutir as formas tradicionais de fazer política. A colecção de materiais de arquivo — incluindo algumas surpreendentes entrevistas televisivas — é tratada com especial cuidado, funcionando como um verdadeiro roteiro biográfico e, de alguma maneira, auto-biográfico.

A caminho dos OSCARS
— associação de argumentistas
distingue Jordan Peele e James Ivory

[Governor Awards]  [Gotham Awards]  [críticos de Nova Iorque]  [críticos de Los Angeles]
[American Film Institute]  [National Society of Film Critics]  [Globos de Ouro]
[National Board of Film Review]  [Critics' Choice Awards]  [NAAPC]  [associação de produtores] [associação de actores]  [N O M E A Ç Õ E S]  [associação de montadores]  [associação de cenógrafos]
[associação de realizadores]  [associação de animadores]  [USC]


A Writers Guild of America, associação que congrega argumentistas de cinema e televisão, atribuiu os seus prémios anuais, de alguma maneira confirmando o favoritismo de Jordan Peele para os Oscars. Foi ele o distinguido na categoria de argumento original, graças ao filme Foge (que também realizou); entre os argumentos adaptados, Chama-me pelo Teu Nome valeu mais um prémio a James Ivory — lista integral de vencedores no site da WGA.

* Argumento original — Jordan Peele, por FOGE [discurso de agradecimento]
* Argumento adaptado — James Ivory, por CHAMA-ME PELO TEU NOME
* Documentário — Brett Morgen, por JANE

Ezra Furman — uma saga queer

Atenção a Transangelic Exodus, de Ezra Furman, desde já candidato a figurar na lista dos grandes álbuns de 2018. Primeiro na formação Ezra Furman and the Harpoons, depois a solo, estamos perante um criador capaz de suscitar as mais diversas referências inspiradoras, sem que isso o transforme num nostálgico das citações — de acordo com uma declaração disponível no AllMusic, este quarto álbum em nome próprio (lembremos o anterior: Perpetual Motion People, lançado em 2015) é mesmo definido por estas palavras que convém conhecer para além das traduções abreviadas (incluindo a que dá o título a este texto): "a combination of fiction and half-true memoir... a paranoid road trip... a queer outlaw saga."
A sensibilidade queer envolve tanto as atribulações narrativas — esta é a história de um casal de amantes em fuga da polícia — como a procura de uma sensualidade formal que, com contagiante felicidade, trata a herança de Chuck Berry como coisa completamente actual, ao mesmo tempo que cultiva uma nostálgica crueza sonora que não é estranha a Bruce Springsteen (Iggy Pop é outras das obsessões artísticas de Furman).
Isto sem esquecer que há uma condição trans-angelical (o título não é um mero trocadilho) que se distingue pela capacidade de ter asas... Não é "ameaçador" para ninguém, garante Furman — e podemos acreditá-lo porque esse é o poder primordial da diferença poética.

Don’t tell my mom, don’t tell my dad
I’ve been driving down to L.A. with my baby
On the cliffs, he drives real fast
He may drive his car into the ocean, maybe

I don’t mind
I’ve got big dreams in my mind
I would give up my whole life for that feelin’
No, I don’t mind
If I lose my legs or die
I’ve built a home inside his eyes
And I ain’t leavin’

Don’t tell my mom, don’t tell my brother
I’ve been driving down the freeway with my master
There’s one law and I’ve known no other
It’s the law of love I’m bound to, drive me faster

I don’t mind
I’ll gladly pay that highway fine
This little heart is open wide and it’s getting wider
No, I don’t mind
If we cross the thin white lines
Over a cliff down to the ground
I am your rider

>>> Driving Down to L.A. em teledisco e ao vivo — direcção de Joseph Brett e Will Meyers, respectivamente; em baixo, entrevista ao New Musical Express.