domingo, maio 27, 2018

* Eurovisão + Cannes
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

Dois festivais: Eurovisão e Cannes, música e cinema. A actualidade global do espectáculo passou por Lisboa e pela Côte d'Azur — propomos o nosso balanço, com imagens e sons.

* FNAC: Chiado, hoje, 27 Maio (18h30)

sábado, maio 26, 2018

A IMAGEM: Martin Parr, 1997

MARTIN PARR
Florida, USA
1997

Até ao fim do mundo (parte 2)

Contra a facilidade das modas, Wim Wenders conta uma história de amor — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Maio), com o título 'Romantismo em tempo de globalização'.

O que é, afinal, a globalização? No filme Submersos, do alemão Wim Wenders, encontramos Danielle, uma biomatemática a investigar o fundo do mar na região da Gronelândia, ansiando por saber notícias de James, um engenheiro hidráulico a trabalhar em projectos humanitários, na verdade ao serviço dos serviços secretos britânicos, preso por jihadistas, algures na costa leste de África — a sua ligação amorosa começou num encontro acidental, em cenários paradisíacos, num hotel em França. Ela é interpretada pela sueca Alicia Vikander, ele pelo escocês James McAvoy.
A globalização não é exactamente a noção pueril segundo a qual tudo comunica com tudo. Será antes a sensação de que tudo acontece em simultâneo, desafiando os limites de qualquer identidade individual. É essa perturbação que Wenders encena em Submersos, de alguma maneira recuperando a vibração emocional e a inquietação política do seu Até ao Fim do Mundo (1991), curiosamente um filme com uma cena rodada em Portugal, num espaço que já não existe (o Teatro-Cine Eden, na Praça dos Restauradores, em Lisboa).
Vikander e McAvoy, brilhantes como raras vezes têm sido, surgem, assim, como um par amoroso a viver uma relação ameaçada pelas convulsões da história colectiva. Não por acaso, Wenders filma-os no seu encontro, em França, como incautos figurantes de deslumbrantes paisagens naturais — eles são, afinal, mensageiros de um cinema que, contra todas as modas, não desistiu do romantismo.

sexta-feira, maio 25, 2018

A nova imagem de Han Solo

Alden Ehrenreich é o novo herói de Star Wars — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Maio), com o título 'Alden Ehrenreich à procura da herança de Harrison Ford'.

Alden Ehrenreich, americano, nascido em Los Angeles há 28 anos, vai poder entrar na galeria dos rostos universais de Hollywood graças ao seu protagonismo no filme Han Solo: Uma História de Star Wars. Compreende-se porquê: afinal, ele surge como herdeiro directo de Harrison Ford, o actor que começou por interpretar o aventureiro galáctico Han Solo, a partir de 1977, quando George Lucas lançou, com impressionante sucesso, o universo de A Guerra das Estrelas.
Eis uma prova muito real do triunfo mediático das grandes produções sobre os filmes que, realmente, nascem de uma visão original do mundo e, em particular, do trabalho cinematográfico. De facto, Ehrenreich tem já uma filmografia de respeito: estreou-se sob a direcção de Francis Ford Coppola, em Tetro (2009), tendo também participado no admirável Rules Don’t Apply (2016), de e com Warren Beatty, sobre os anos finais do milionário Howard Hughes (1905-1976); neste caso, o filme nem sequer chegou às salas portuguesas, tendo apenas passado, de modo ultra-discreto, no cabo, com o título Excepção à Regra.
Em boa verdade, há muito que o universo Star Wars deixou de ser administrado como um conceito de aventura, dando lugar a uma máquina bem oleada de marketing. Ehrenreich não deixa de ser um talentoso actor, assumindo com serena contenção a herança de Harrison Ford. O certo é que estamos perante mais um capítulo da lógica de gestão dos estúdios Disney, desde que assumiram o controle do património da Lucasfilms — na prática, trata-se de garantir o lançamento de um título por ano. Em 2015, surgiu O Despertar da Força, episódio VII da saga original; no ano seguinte, foi a vez de Rogue One, a primeira “derivação”; no final do ano passado, estreou-se Os Últimos Jedi, episódio VIII. Agora, Han Solo: Uma História de Star Wars propõe mais uma variação, centrando-se na juventude do herói, estando agendado para Dezembro de 2019 o lançamento do episódio XIX, ainda sem título.
Convenhamos que não há muito a esperar de um empreendimento deste teor. As suas motivações principais já pouco envolvem de genuíno gosto cinematográfico, contrariando, aliás, a lógica inicial de Lucas (goste-se mais ou goste-se menos, ele foi um genuíno inovador na concepção da aventura e na aplicação das potencialidades da tecnologia). Daí que, apesar de tudo, não possamos deixar de saudar a competência tradicional que encontramos em Han Solo: Uma História de Star Wars.
Mérito de Ron Howard, sem dúvida, realizador veterano (oscarizado em 2002, por Uma Mente Brilhante) que consegue resistir à facilidade de entregar a gestão da narrativa às arbitrariedades das equipas de efeitos especiais. Há, pelo menos, algumas cenas em que as personagens não estão perdidas nos cenários digitais, dando hipótese aos actores de trabalharem um pouco, criando algumas linhas dramáticas de tensão. Perante a mediocridade de tantos filmes “juvenis”, saudemos alguém que não se esqueceu do que é o cinema.

Philip Roth (1933 - 2018)

[ NewStatesman ]

>>> You fight your superficiality, your shallowness, so as to try to come at people without unreal expectations, without an overload of bias or hope or arrogance, as untanklike as you can be, sans cannon and machine guns and steel plating half a foot thick; you come at them unmenacingly on your own ten toes instead of tearing up the turf with your caterpillar treads, take them on with an open mind, as equals, man to man, as we used to say, and yet you never fail to get them wrong. You might as well have the brain of a tank. You get them wrong before you meet them, while you're anticipating meeting them; you get them wrong while you're with them; and then you go home to tell somebody else about the meeting and you get them all wrong again. Since the same generally goes for them with you, the whole thing is really a dazzling illusion. ... The fact remains that getting people right is not what living is all about anyway. It's getting them wrong that is living, getting them wrong and wrong and wrong and then, on careful reconsideration, getting them wrong again. That's how we know we're alive: we're wrong. Maybe the best thing would be to forget being right or wrong about people and just go along for the ride. But if you can do that — well, lucky you.

AMERICAN PASTORAL (1997)

>>> The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open.

THE DYING ANIMAL (2001)

>>> Other people's weakness can destroy you just as much as their strength can. Weak people are not harmless. Their weakness can be their strength.

INDIGNATION (2008)

É um dos nomes fulcrais da escrita norte-americana dos últimos 60 anos, retratista metódico e implacável da imperfeição humana: Philip Roth faleceu a 22 de Maio, num hospital de Manhattan, na sequência de problemas cardíacos — contava 85 anos.
De Goodbye, Columbus (1959) a Todo o Mundo (2006) ou A Humilhação (2009), Roth segue um método de maturação do seu próprio objecto de escrita, como se escrever fosse a arte de expor o real através dos impossíveis que o atravessam. Tal atitude chega ao ponto de, nesse romance prodigioso que é A Conspiração Contra a América (2004), formular a hipótese de Charles Lindbergh, movido pela suas ideias anti-semitas, ganhar as eleições americanas de 1940 contra Franklin D. Roosevelt, gerando um universo surreal, afinal, carregado de realismo. Isto sem esquecer essa desencantada obra-prima que é Pastoral Americana (1997), aliás refeita num belo filme de e com Ewan McGregor cuja contenção não suscitou especial entusiasmo na maior parte dos espectadores. Eis o filme da BBC Philip Roth Unleashed (2014), em duas partes, apresentado por Alan Yentob.




>>> Obituário no New York Times.
>>> Entrevista aos 80 anos na NPR.
>>> Artigos de Philip Roth em The New Yorker.
>>> Philip Roth em The New York Review of Books.

quinta-feira, maio 24, 2018

Godard em Cannes (aliás, na Suíça)

Cannes, 12 Maio 2018
Memória incontornável de Cannes/2018: a conferência de imprensa de Jean-Luc Godard — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Maio), com o título 'Reaprender a olhar com Godard'.

O melhor “filme” de Cannes/2018 dura 45 minutos e pode ser visto em diversos espaços da Net, incluindo o site do festival, o YouTube ou o DailyMotion: é o registo da conferência de imprensa de Jean-Luc Godard sobre Le Livre d’Image (adquirido para o mercado português pela Midas Filmes). Num ritual revelador das maravilhas e ambiguidades do nosso mundo de imagens (e sons), Godard respondeu aos jornalistas a partir de sua casa, na Suíça, via telemóvel [video].
Que aconteceu? Nada a ver com uma celebração beata do fascínio tecnológico. Afinal, o dispositivo virtual (FaceTime, lançado pela Apple em 2010) é uma ferramenta que passou a fazer parte do dia a dia de muitos cidadãos. Para Godard, ainda e sempre um aplicado artesão, trata-se de saber se, através dos instrumentos de que dispomos, alguma comunicação passa ou pode passar. À maneira do ténis, como ele gosta de dizer: quando lançamos a bola, aguardamos a sua viagem de regresso…
Em boa verdade, Godard limitou-se a chamar a atenção para um facto corrente que, por distracção ou cinismo, tentamos esquecer: falamos cada vez menos uns com os outros, iludindo-nos com o facto de falarmos para as imagens dos outros (facultando-lhes também as nossas imagens). O filme Le Livre d’Image constitui uma magistral lição sobre a percepção da história através de tal aparato audiovisual. Lição de olhar, sem dúvida, lição preciosa para pensarmos este planeta triste que transformou o Facebook na forma dominante de “comunicação”.
Claro que a demagogia de cineastas como Nadine Labaki, explorando a “fotogenia” da miséria em Capharnaüm, se vende melhor nas plataformas noticiosas de todo o mundo (o que deixa em aberto a possibilidade de alguma reflexão jornalística sobre esse perverso poder de difusão). Ainda assim, alguns grandes filmes de Cannes partilharam a exigência “godardiana” de perguntar como são as imagens da nossa vida, como vivemos com elas e através delas – melhor ou pior, conhecendo ou ignorando o nosso semelhante.
Tal dinâmica marca, por exemplo, o prodigioso BlacKkKlansman, do americano Spike Lee, centrado na experiência real de Ron Stallworth, um polícia que, em 1979, conseguiu infiltrar-se na organização racista Ku Klux Klan. Pormenor irónico, infinitamente cruel: sendo Stallworth um homem de pele negra (os seus contactos foram sempre feitos por telefone), a moral da história diz-nos que não será possível pensar o racismo sem ter em conta a sua existência enquanto política das imagens. Olhamos, logo fazemos política.

Bill Gold (1921 - 2018)

[ AFI ]
A sua assinatura está em alguns dos posters mais emblemáticos da história do cinema americano: o artista gráfico Bill Gold faleceu no dia 20 de Maio, na sua casa de Old Greenwich, Connecticut — contava 97 anos.
A herança de Gold é tanto mais espantosa quanto a sua carreira se desenvolve ao longo de sete décadas, começando com Yankee Doodle Dandy (1942), de Michael Curtiz, para terminar com J. Edgar (2011), de Clint Eastwood. Entre os títulos da idade clássica de Hollywood que beneficiaram das imagens promocionais por ele criadas incluem-se Casablanca (1942), de Michael Curtiz, The Big Sleep (1946), de Howard Hawks, Baby Doll (1955), de Elia Kazan, The Searchers (1956), de John Ford, e My Fair Lady (1964), de George Cukor. Na lista de muitas dezenas de trabalhos de Gold, podemos encontrar ainda, por exemplo, Bonnie e Clyde (1967), de Arthur Penn, Deliverance (1972), de John Boorman,  Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, Platoon (1986), de Oliver Stone, e Unforgiven (1992), de Clint Eastwood. Privilegiando a figura humana, Gold foi um símbolo de uma evolução iconográfica que, em boa verdade, nunca menosprezou as suas raízes clássicas. Em 1994, The Hollywood Reporter homenageou-o com um prémio de carreira.


>>> Obituário no New York Times.

quarta-feira, maio 23, 2018

Robert Indiana (1928 - 2018)

[ Time ]
Símbolo exemplar da sensibilidade pop, o artista americano Robert Indiana faleceu no dia 19 de Maio, em sua casa, em Vinalhaven, Maine — contava 89 anos.
Dir-se-ia que a sua obra se pode resumir numa ideia paradoxal de condensação & ampliação, partindo de números, palavras ou símbolos para criar entidades vocacionadas para uma existência de infinita reprodução. O seu "Love" constitui, por certo, o objecto mais universal do seu trabalho, existindo como pintura, escultura ou ilustração de selo de correio. No limite, talvez se possa considerar que Indiana era capaz de virar o mundo do avesso, promovendo o fragmento a monumento, nessa medida ajudando-nos a compreender o artifício que existe na suposta naturalidade da linguagem. A retrospectiva que o Whitney Museum of American Art lhe dedicou em 2013 apresentava um eloquente título: "Robert Indiana: Beyond LOVE".

GOD IS A LILY OF THE VALLEY (1961)
LOVE (1966)
NEW GLORY BANNER (1999)

>>> Obituário no New York Times.
>>> Site oficial de Robert Indiana.

terça-feira, maio 22, 2018

Júlio Pomar (1926 - 2018)

[FOTO: Miguel A. Lopes]
Pintor do visível e do pressentimento do invisível, é uma figura nuclear na história da modernidade portuguesa: Júlio Pomar faleceu no dia 22 de Maio, no Hospital da Luz, em Lisboa — contava 92 anos.
A afirmação criativa de Pomar é indissociável, no plano político, da resistência ao Estado Novo e, em termos artísticos, da sensibilidade neo-realista — O Almoço do Trolha (1949) será a obra mais emblemática desse período. Ao longo das décadas de 60/70, o progressivo distanciamento das lutas políticas e o tempo vivido em Paris terão como consequência uma certa "libertação" das linhas e das cores, aceitando influências abstractas ou surreais, mas sem perder o contacto com um obstinado desejo de figuração — observem-se exemplos tão contrastados e, afinal, tão cúmplices nessa evolução como Entrada de Touros (1963), O Banho Turco (1971) ou Le Luxe (1979).
Significativo é o facto deste processo evolutivo conduzir Pomar a uma abordagem, tão sistemática quanto obsessiva, das figuras de alguns animais, com obrigatório destaque para a sua impressionante série de tigres. Os seus azulejos para a estação de Metro de Alto dos Moinhos, em Lisboa — integrando, em particular, as figuras de Luís de Camões e Fernando Pessoa —, decorrem de uma visão de dessacralização do próprio objecto artístico, expondo-se no lugar comum dos cidadãos, mas não rasurando os traços míticos da própria comunidade. Dir-se-ia que o Portugal pintado por Pomar é órfão da sua própria energia utópica. O Atelier-Museu Júlio Pomar, inaugurado em 2013, nasceu também como corolário institucional daquela visão, "procurando semear a liberdade do olhar, a postura crítica e a abertura que caracteriza o autor que lhe dá nome."

O ALMOÇO DO TROLHA (1949)
O BANHO TURCO (1971)
L' ÉTONNEMENT (1979)

>>> Obituário no Observador.
>>> Site do Atelier-Museu Júlio Pomar.
>>> Júlio Pomar no blog de Alexandre Pomar.
>>> Júlio Pomar no Museu Calouste Gulbenkian.

>>> Entrevista a Júlio Pomar, por Aurélio Gomes ['Baseado numa História Verídica', Canal Q, 2011]

domingo, maio 20, 2018

Na intimidade do Facebook

[TIME]
De que falamos quando falamos do Facebook? Ou ainda: porque é quando especulamos sobre aquilo que o Facebook devia ser, quase ninguém se confronta com aquilo que o Facebook é? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Maio).

Vejo e revejo as imagens de Mark Zuckerberg, sentado, em postura oficial, a responder a uma comissão do Congresso dos EUA. São imagens reproduzidas vezes sem conta, ligadas às mais contrastadas considerações sobre o passado, presente e futuro dessa entidade a que ele deu o nome emblemático, entretanto mitológico, de Facebook.
Num tempo em que proliferam as “análises” sobre os elementos mais irrisórios do nosso mundo, não encontro qualquer empenho em pensar a própria designação de “rede social”. Perguntando, por exemplo, o que é que aconteceu para que, em poucos anos, a noção de “social” tivesse passado a existir como equivalente único dos links que podemos estabelecer com o vizinho do lado ou o anónimo do outro lado do planeta.
São cada vez menos os que se lembram que o “social” começa na soleira da nossa porta, não na ligação virtual que, eventualmente, nos permite perceber que um cidadão de uma remota aldeia dos confins de um continente de outro hemisfério consome a mesma marca de bolachas… Deprimente social.
A Rede Social
Não terei a ousadia de demonizar a felicidade dos que, todos os dias, vivem tais rituais de conhecimento virtual. Ainda assim, cinéfilo impenitente, não posso deixar de reparar como as recentes peripécias da vida de Zuckerberg têm servido para denegrir o filme que David Fincher realizou, em 2010, sobre o nascimento do Facebook – e que se chama, justamente, A Rede Social.
Admirável filme, digo eu. Mas não é um mero juízo de valor que está em causa. O que me parece desconcertante é o facto de tal reavaliação fazer parte de um processo mais geral de que Zuckerberg, sintomaticamente, tem sido o principal porta voz. A saber: importa superar todo este drama – 87 milhões de pessoas cujos dados pessoais foram tratados como mercadoria –, criando melhores condições técnicas de gestão dos elementos privados…
Evitemos as generalizações fáceis. Não rasuremos o facto de, melhor ou pior, o Facebook existir como factor incontornável do sistema contemporâneo de organização do espaço vivo dos humanos. O certo é que estamos a falar do triunfo de uma cultura (entenda-se: um sistema de relações e valores de vida) que considera “normal” que os dados mais pessoais – incluindo as imagens – sejam expostos e, de alguma maneira, doados como elementos de partilha global. Desde quando esta brutal reconversão da própria noção de intimidade (e dessa coisa outrora respeitada que e o pudor) se tornou um banal problema técnico? Onde esta um político para colocar essa pergunta?