segunda-feira, setembro 25, 2017

Kingsman, a sequela

* KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO, de Matthew Vaughn
[ DN, 21-09-2017 ]

Será que os “blockbusters” já só são pretextos para produzir... sequelas? Mesmo os exemplos mais brilhantes parecem não resistir ao flagelo das “continuações” por qualquer preço. Lembremos o brilhante Kingsman: Serviços Secretos (2014), uma realização de Matthew Vaughn, com Colin Firth e Taron Egerton, brincando inteligentemente com as convenções dos filmes de espiões mais ou menos ligados à tradição de James Bond. Pois bem, todos eles regressam em Kingsman: O Círculo Dourado para fabricar um daqueles objectos que confunde espectáculo com a acumulação de cenários destruídos... Julianne Moore é a “má da fita” que quer dominar o mundo através das drogas — e custa sempre ver um tão grande talento tão mal aproveitado; resta Elton John a fazer a sua própria caricatura, fingindo estoicamente que se está a divertir.

domingo, setembro 24, 2017

João Ferreira-Rosa (1937 - 2017)

Celebrizado pela sua interpretação do Fado do Embuçado, João Ferreira-Rosa faleceu no dia 24 de Setembro, no Hospital de Loures — contava 80 anos.
Muito para além do Embuçado, foi acima de tudo um intransigente e coerente defensor da tradição do fado, resistindo a contaminações fáceis, mais ou menos impulsionadas pela lógica mercantil da chamada "world music". A sua criatividade traduziu-se também nos poemas que escreveu para vários fados, incluindo os belíssimos Triste Sorte [video], Fado das Mágoas e Pedi a Deus. Em 1966, criou em Alfama a Taverna do Embuçado, durante as duas décadas que se seguiram um lugar emblemático do fado tradicional. Ontem e Hoje (1996), gravado no Palácio Pintéus, Loures (para cuja preservação e restauro a acção de Ferreira-Rosa foi determinante), é normalmente apontado como o álbum que melhor faz a síntese das suas qualidades de intérprete.

Ando da vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu.
Duma noite menos fria,
E em que não sinta a agonia
Dum dia a mais que morreu.

Vou cantando amargurado,
Mais um fado e outro fado
Que fale do fado meu.
Meu destino assim cantado
Jamais pode ser mudado
Porque do fado sou eu.

Ser fadista é triste sorte,
Que nos faz pensar na morte
E em tudo o que nós morreu.
E andar na vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

sábado, setembro 23, 2017

"Avatar" no pequeno ecrã

E se alguma verdade de um filme como Avatar ganhasse em ser vista num ecrã televisivo? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Setembro), com o título 'Na encruzilhada de “Avatar"'.

Oito anos depois do lançamento nas salas de Avatar (foi no Natal de 2009), reencontro o filme de James Cameron na televisão por cabo (TVCine & Séries). E não posso deixar de reconhecer que esta redescoberta me compele a reavaliar a minha relação relutante com o filme.
Peço alguma indulgência do leitor. Não se trata de reactivar um banal conflito de juízos de valor, polarizado entre o “bom” e o “mau”; aliás, perante objecto tão singular, é normal (parece-me mesmo salutar) que Avatar suscite os maiores contrastes entre os respectivos espectadores. E também ninguém pretende escamotear o lugar nuclear que o filme ocupa na dinâmica industrial e comercial do cinema da última década — com a sua utilização “pioneira” do 3D (sem esquecer que as três dimensões marcam a história do cinema desde a década de 1950), Avatar será mesmo, muito provavelmente, o filme mais influente de todo o século XXI.
James Cameron
Dito isto, confesso o meu escasso entusiasmo pela “novidade” tecnológica. É bem certo que, depois, foram aparecendo alguns (poucos) filmes que, a meu ver, utilizam o 3D de forma subtil, com inevitável destaque para dois títulos de 2011: As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne, de Steven Spielberg, e A Invenção de Hugo, de Martin Scorsese. Ainda assim, a memória mais forte que tinha de Avatar ligava-se menos às proezas técnicas e mais à sua estrutura de aventura ecológica (esquemática, mas eficaz, um pouco à maneira dos mais nobres clássicos de série B), opondo os humanos ao povo azul do planeta Pandora.
Ora, a revisão de Avatar num ecrã caseiro de televisão envolve uma paradoxal revelação: não só o 3D se torna insolitamente irrelevante, como a composição das imagens (enquadramentos, movimentos e, sobretudo, a espantosa paleta de cores) surge depurada e valorizada. No limite, apetece dizer que a concepção visual de Cameron, resultante de um longo e paciente trabalho de produção (o primeiro esboço de argumento de Avatar surgiu em 1994), é “apenas” tradicional, aplicando e exibindo o 3D como um “gadget”... dispensável.
São sinais e dúvidas de toda uma encruzilhada expressiva, sintomática da complexa conjuntura audiovisual em que vivemos. Por um lado, o 3D, aproximando os filmes de algumas componentes dos jogos de vídeo, tem sido um elemento forte na recuperação de receitas cinematográficas; por outro lado, está ainda por provar a sua pertinência criativa. O que nos conduz a este curioso “absurdo”: Avatar pode ser mais interessante sem 3D, visto num tradicional ecrã caseiro.

Tricky, opus 13

Provavelmente, na paisagem de misticismos, monumentais ou irrisórios, por onde circula o trip hop de Tricky, o lançamento de um novo álbum de estúdio, identificado pelo assombrado nº 13, seria motivo para algum tipo de ritual de purificação moral ou purga estética. Podia até ser pretexto para uma demanda do mais ancestral realismo. Desenganemo-nos: dir-se-ia assumindo os 50 anos que se aproximam (Tricky, aliás, Adrian Nicholas Matthews Thaws nasceu a 27 de Janeiro de 1968, em Bristol, Inglaterra), Ununiform é apenas uma revisão da matéria dada. Apenas? No seu minimalismo intimista, capaz de integrar tanto a habitual colaboradora Martina Topley-Bird, como os rappers russos Smoky Mo e Scriptonite, sem esquecer as vozes singulares de Asia Argento e Avalon Lurks (esta numa versão do clássico Doll Parts, das Hole), Ununiform é isso mesmo: uma colecção de temas serenamente compactos, embora disponíveis para as atribulações do disforme, nele descobrindo novos equilíbrios melódicos ou cumplicidades rítmicas.
O teledisco que serve de cartão de visita ao álbum é um pequeno prodígio: realizado por Jenny Marie Baldoz, When We Die (com Martina Topley-Bird) devolve-nos a dor e poesia das ruas de Nova Iorque, através de um registo a meio caminho entre a frieza documental e a deambulação poética — talvez seja essa, afinal, a lógica primordial dos sons do trip hop.

sexta-feira, setembro 22, 2017

"A Fábrica de Nada" — Portugal, 2017

Um grande filme português, nacional e internacional, regional e universal — texto disponível no site do Diário de Notícias.

Chega finalmente às salas escuras o filme de Pedro Pinho, produzido pela Terratreme, A Fábrica de Nada. Nos últimos meses, mais precisamente desde Maio — quando ganhou um prémio FIPRESCI (crítica internacional) no Festival de Cannes —, tem sido o mais activo embaixador do cinema português no estrangeiro.
Magnífico paradoxo: o impacto internacional de A Fábrica de Nada enraíza-se, afinal, na sua dimensão visceralmente portuguesa. Como tem sido amplamente divulgado, nele se conta uma história que ecoa as mais recentes convulsões económicas vividas no nosso país. Tudo acontece, de facto, numa fábrica “assaltada” pela própria administração, retirando máquinas e matérias primas das instalações — adivinhando uma vaga de despedimentos, os trabalhadores decidem permanecer nos seus postos, tentando encontrar soluções para vencer o “nada” em que a situação ameaça desembocar...
O filme foi escrito por Pedro Pinho, Luísa Homem, Leonor Noivo e Tiago Hespanha, a partir de uma ideia de Jorge Silva Melo (decorrente da sua encenação da peça A Fábrica de Nada, de Judith Herzberg). Através do cruzamento de actores e não actores, assistimos, afinal, a um verdadeiro processo de interrogação, com o seu quê de “jornalístico”, de uma realidade complexa e multifacetada. E as perguntas que emergem são tão directas quanto incontornáveis. Que significa trabalhar? Quais as relações entre trabalho e dinheiro? Como viver num tempo que transformou trabalho e dinheiro em índices perturbantes de uma crise omnipresente?
Muito se tem falado do facto de, em determinado momento, A Fábrica de Nada se “desviar” para um registo musical, com as personagens a cantar e dançar. Em boa verdade, tal informação peca por simplismo. As matérias musicais são apenas um exemplo do jogo de contrastes que o filme ensaia, confrontando o tom “militante” de algumas cenas com o delírio surreal de outras, contrapondo o registo quase documental de certos momentos à assumida teatralidade de outros.
Tudo Vai Bem (1972), de Jean-Luc Godard, uma admirável reflexão sobre as mágoas herdadas de Maio 68, poderá ter sido (ou não) uma inspiração remota para o dispositivo de A Fábrica de Nada. Não se trata de encontrar “modelos” para um filme suficientemente ágil e inteligente para construir a sua própria linguagem. O certo é que há um paralelismo que faz sentido evocar: em ambos os casos, somos confrontados com a urgência dos problemas sociais e, ao mesmo tempo, com a necessidade, de uma só vez estética e política, de repensar os modos de tratamento cinematográfico de tais problemas.
A Fábrica de Nada é, enfim, um filme sobre a dificuldade de olharmos e compreendermos o mundo à nossa volta: o que nele acontece não se esgota num relatório “objectivo”, já que com ele percebemos que as imagens (e os sons) não reproduzem o mundo, antes o recriam de forma mais ou menos singular, eventualmente gerando novas hipóteses de olhar, sentir e pensar. Nessa medida, este é o mais político dos filmes. Porquê? Porque dispensa a retórica dominante na cena política, ousando celebrar o prazer de ver (e escutar) através do cinema.

quinta-feira, setembro 21, 2017

Bowie, Berlim & etc.
— SOUND + VISION Magazine, dia 30

[ Masayoshi Sukita, 1977 ]

Estamos de regresso à FNAC do Chiado para revisitarmos David Bowie no tempo mítico do seu capítulo made in Germany, tendo como ponto de partida uma especialíssima reedição da 'Trilogia de Berlim'— a partir daí, propomos uma deambulação pela cidade, na música, no cinema, nas outras artes.

* FNAC: Chiado, 30 Setembro (18h30)

terça-feira, setembro 19, 2017

Detroit — um retrato de Kathryn Bigelow

Will Poulter e Kathryn Bigelow
— rodagem de DETROIT
Kathryn Bigelow evoca os motins de Detroit, em 1967, naquele que é um dos filmes maiores de 2017 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Setembro), com o título 'Kathryn Bigelow revisita convulsões dos anos 60'.

Na actual conjuntura de Hollywood, o novo filme de Kathryn Bigelow, Detroit, é a excepção que confirma a regra. Dito de outro modo: a regra dos grandes estúdios tende a privilegiar a produção e promoção de aventuras mais ou menos escapistas, vividas em cenários de outras galáxias; a excepção aposta no poder, eminentemente clássico, de o cinema nos confrontar com o mundo em que vivemos, das suas memórias às convulsões do presente.
Mas não simplifiquemos. É uma excepção relativa, se assim nos podemos exprimir — e que reflecte, em particular, a vitalidade de alguns sectores da chamada produção independente (neste caso, os estúdios Annapurna Pictures). Neste contexto, Bigelow, ela sim, está consagrada como uma das mais emblemáticas excepções: o seu Oscar de melhor realizadora por Estado de Guerra (2008) continua a ser o único dessa categoria alguma vez atribuído a uma mulher.
Abordando o envolvimento americano no Iraque, em Estado de Guerra, ou a perseguição a Osama Bin-Laden em 00:30, a Hora Negra (2012), Bigelow tem sido uma genuína artista política — e da política —, apostada em problematizar temas e situações em que os valores fundadores da identidade americana se confrontam com as suas próprias ambivalências e recalcamentos.
O caso de Detroit é, de novo, exemplar. Trata-se de evocar os motins que abalaram a cidade de Detroit, em 1967. O disparo acidental de uma arma (aliás, uma pistola de pólvora seca usada para os sinais de partida das provas desportivas) num motel da cidade, de nome Algiers, vai desencadear uma intervenção brutal da polícia. Mais exactamente: os agentes brancos da polícia lidam com os negros envolvidos no incidente através de um processo de crescente humilhação, violência e, por fim, homicídio.
Também aqui, importa não ceder a simplificações. O que aconteceu no Algiers, aliás amplamente investigado ao longo das décadas (em particular no livro de 1968, The Algiers Motel Incident, de John Hersey, jornalista então já distinguido com um prémio Pulitzer), está longe de ser tratado por Bigelow como um “fait divers” capaz de “simbolizar” o tema do racismo. Antes disso, o filme gasta o tempo necessário e suficiente para nos apresentar toda uma conjuntura social — ligada às lutas pelos direitos civis na América da década de 60 — em que a segregação dos negros surge como uma componente transversal. Nesta perspectiva, o filme Eu Não Sou o Teu Negro, de Raoul Peck, sobre o escritor James Baldwin (há pouco lançado em DVD), pode ser um complemento muito útil para compreender a conjuntura nacional em que ocorreram os factos abordados por Bigelow.
Sem nunca perder de vista tal conjuntura, Detroit é um filme tanto mais admirável quanto sabe elaborar uma complexa teia de personagens e relações que integra uma envolvente pulsação realista e “documental”. Recusando qualquer maniqueísmo que oponha “heróis” a “anti-heróis”, a sua narrativa desemboca, curiosamente, na odisseia (também ela verídica) do grupo vocal The Dramatics — para compreendermos as encruzilhadas da história colectiva, é preciso um pouco de tudo, incluindo a música [All Because of You, The Dramatics].

Cinema + sexo + "psicologia"

Una - Negra Sedução é um significativo exemplo de um pequeno grande filme pouco ou nada defendido pelas lógicas dominantes do mercado — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Setembro).

O mercado cinematográfico tem agravado um perverso contraste: de um lado estão os poucos filmes que desfrutam de grandes campanhas promocionais; do outro os muitos que, quase sem apoio publicitário (para mais ocupando um número reduzido de ecrãs), correm o risco de a sua existência nem sequer ser conhecida dos potenciais espectadores.
Como é óbvio, não há nenhuma relação, directa ou indirecta, entre as qualidades específicas de um filme e a sua promoção — nenhum filme é “mau” por ter grande cobertura publicitária, nenhum filme é “bom” por ser menosprezado pelos valores dominantes do marketing (ainda que isso não nos impeça de reconhecer que muitas linguagens desse marketing ignoram a pluralidade imensa, temática e estética, da produção cinematográfica contemporânea).
Benedict Andrews
Assim, há objectos cinematográficos que, mesmo quando se distinguem por uma singular ousadia temática, não conseguem surgir nas linhas da frente do mercado. É verdade que um “tema” forte, seja ele qual for, não faz um filme. Mas não é menos verdade que não é todos os dias que podemos descobrir um filme como Una – Negra Sedução, de Benedict Andrews, colocando em cena a relação sexual de um homem de 40 anos com uma menina de 12.
A personagem que dá pelo nome de Una (Rooney Mara) é a mulher que, quinze anos depois, regressa para confrontar Ray (Ben Mendelsohn) com aquilo que aconteceu. É uma revisitação de um trauma profundo que envolve uma perturbação tanto maior quanto a dimensão monstruosa daquela relação não exclui uma interrogação visceral. A saber: como viver sem os gestos do amor?
Nenhum resumo meramente factual pode condensar a pudica vibração de um filme que, além do mais, encontra no seu elenco uma expressão exemplar — Rooney Mara tem mesmo uma composição digna de Oscar, sem esquecer a talentosa Ruby Stokes que assume a personagem de Una com 12 anos. O modo de “mostrar” aquilo que aconteceu surge transfigurado em algo mais radical: baseado na peça Blackbird, de David Harrower (também responsável pela adaptação ao cinema), este é um filme que sabe preservar as intensidades próprias da palavra, quer dizer, a dificuldade imensa de conseguir dizer aquilo que realmente foi vivido por Una e Ray.
Estamos, então, perante um exemplo modelar de um cinema sem complexos de ser “psicológico”? O adjectivo é discutível, mas toca num ponto essencial: as forças dominantes dos mercados interessam-se pouco pelos corpos e desejos de personagens humanas, favorecendo antes os heróis digitais de outras galáxias.

segunda-feira, setembro 18, 2017

3 curtas portuguesas no cinema Ideal

Pedro Borges à porta do Ideal, na rua do Loreto
[FOTO: Orlando Almeida / DN]
Três curtas-metragens portuguesas foram lançadas pela Midas Filmes. Pedro Borges, director da distribuidora, também responsável pelo cinema Ideal, em Lisboa, comenta o evento — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (13 Setembro), com o título '“As curtas-metragens são para inventar, inovar, surpreender"'.

A comemorar três anos de existência, o cinema Ideal apresenta "3 Novas Curtas Portuguesas".É mais uma proposta da Midas Filmes, distribuidora, exibidora e produtora — Pedro Borges, fundador e director da empresa, faz o ponto da situação.

As curtas-metragens tornaram-se raras no actual sistema de distribuição/exibição. Que razões levaram a Midas Filmes a arriscar na apresentação deste programa com Cidade Pequena [Diogo Costa Amarante], Coelho Mau [Carlos Conceição] e Farpões Baldios [Marta Mateus]?
A estreia de uma curta-metragem foi sempre uma excepção e quase sempre "colada" a uma longa. Muito raramente correu bem. Esta ideia de juntar três filmes e dar-lhes um estatuto de "filmes à séria" surgiu da sua própria circunstância: três filmes muito bons, um Urso de Ouro de Berlim, ao mesmo tempo que duas curtas em Cannes e depois uma delas a receber o Grande Prémio de Vila do Conde. E a vontade de uma afirmação política clara numa altura em que o cinema português que interessa e o seu Instituto viveram uma dramática tentativa de assalto e privatização. Quer dizer, mostrar que há um cinema português que vem do Cinema Novo dos anos 60 (e que à excepção de Oliveira, sabia que tudo o resto que houve antes era abominável) e que foi passando o testemunho: estes jovens cineastas (e outros como eles) são dignos herdeiros dessa linhagem, têm um talento mais que evidente e uma vontade de fazer cinema muito estimulante. As curtas-metragens não são para macaquear a televisão nem para contar historietas, são para inventar, inovar, surpreender. Estas "3 Novas Curtas Portuguesas" são isso mesmo e a sua estreia é apenas a "continuação da (mesma) guerra por outros meios"…

Há um contraste evidente entre o número de curtas que se vão fazendo em Portugal e as que, efectivamente, são exibidas nas salas — para além deste exemplo concreto, que medidas se poderiam tomar para dar mais visibilidade aos filmes?
Não creio que seja uma circunstância exclusivamente portuguesa. E hoje em dia há todo um circuito em que os filmes circulam e são mostrados que tem um valor próprio: todos os dias do ano estão a acontecer por esse mundo fora umas centenas de festivais de cinema de todo o género e feitio que convocam milhões de espectadores. É outra coisa que não cinema, mas é também uma maneira de os filmes serem vistos.

Esta estreia no cinema Ideal acontece pouco depois da reposição de dois musicais clássicos de Jacques Demy, outro modelo de espectáculo pouco frequente nas salas — as apostas deste género vão continuar?
Hoje em dia tudo está disponível em todo o lado ao mesmo tempo. Se não contrariarmos esta ideia feita e não nos reinventarmos todos os dias, estaremos condenados. Estamos sempre a pensar em cem anos de filmes e a ver o que se está a fazer de novo.

A Midas mantém, em paralelo, um importante sector de edições em DVD. Do ponto de vista comercial, como funciona essa relação? O DVD pode ser decisivo ou é sempre a exibição em sala que define a performance de um filme?
Embora os cinemas estejam a morrer, a verdade é que só os filmes que existem nos cinemas é que verdadeiramente existem. Não economicamente — os resultados da sala de cinema são quase negligenciáveis —, mas como trabalho para durar no tempo. Porque os filmes que duram dois meses, já nascem mortos… Os filmes que interessam acabam sempre por ter uma vida saudável no cinema e depois no DVD e em todas as plataformas em que hoje em dia se vê cinema. Mas as salas de cinema são e serão sempre decisivas para que os bons filmes se dêem a conhecer e vivam.

Três anos depois da abertura do Ideal, que balanço se pode fazer da sua actividade? Estamos perante um relançamento do modelo tradicional das salas de "arte e ensaio"?
Creio que um pouco de estatística é importante: estreámos quase 200 filmes e só um terço deles era distribuição da Midas. Um quarto do total foram portugueses: 48 filmes. E documentários foram 44 e reposições 14. O nosso grande falhanço foi que, ao fim de três anos, apenas mais um cinema parecido com o Ideal reabriu (no Porto, o Trindade). Devia haver por esse país fora mais uma ou duas dúzias de cinemas assim. Não seremos nós a fazê-los, mas alguém deveria fazê-lo. Assim houvesse uma política pública para o cinema...